Carta Aberta aos Médicos Portugueses

Publicada no Jornal Observador a 25/9/2020

‹‹As epidemias são fenómenos sociais e políticos com algumas implicações médicas›› – Rudolph Virchow

Prezados colegas,

O impacto do COVID-19 e das medidas de contenção têm tal magnitude que é necessário discutirmos este assunto na “praça pública”, abertamente e sem quaisquer rodeios.

A narrativa apocalíptica, a “covidização” do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e do sector privado da saúde, aqui incluindo os consultórios médicos, o confinamento de pessoas saudáveis e assintomáticas, a generalização do uso de máscaras, o higienismo e o distanciamento social, são fruto do pânico e da ignorância e, é necessário que o proclamemos bem alto, não têm qualquer justificação médica.

A narrativa apocalíptica, comecemos por aqui, devia ter sido imediatamente denunciada pelas Associações Médicas como falsa e alarmista, potencialmente maligna sob o ponto de vista social e indutora de comportamentos que, por si só, acarretariam consequências fatais. Estou a pensar nos idosos “abandonados” nos lares da terceira idade, por exemplo, pela ausência de funcionários compelidos a quarentenas questionáveis.

A covidização do Sistema de Saúde, no seu conjunto, constituiu e continua a constituir uma tragédia infame. Milhares de pessoas viram os seus tratamentos adiados e muitas centenas faleceram por falta de assistência médica.

O excesso de mortalidade verificado nos últimos meses, depois de excluir as fatalidades COVID, é o reflexo dessa falta de assistência e também do pânico incutido na população, que foge das urgências como o Diabo da cruz para falecer em casa, de forma prematura e desnecessária.

A profilaxia das doenças oncológicas estagnou e podemos garantir que a mortalidade relacionada com estas patologias irá explodir em breve. O cancro da mama e do cólon, para só falar destes, são curáveis se detetados numa fase inicial, mas, passando essa janela de oportunidade, tudo fica em causa.

A Ordem dos Médicos (OM) deve exigir o regresso à normalidade, deve exigir a des-covidização do Sistema de Saúde. Não faz sentido exigir testes de COVID a pessoas absolutamente assintomáticas, antes de intervenções programadas, quando não se exigem testes para outras doenças contagiosas, como a Hepatite B, o HIV ou a Tuberculose.

Por fim, é imperativo que os médicos denunciem as medidas governamentais de contenção do COVID-19 que não tenham fundamento na “legis artis”, na prática clínica consagrada pelo tempo, ou que sejam desproporcionadas face aos riscos existentes.

O confinamento de pessoas saudáveis e a generalização do uso de máscaras, especialmente em espaços abertos, não tem qualquer base científica. São medidas que nunca foram utilizadas no passado e que, por assim dizer, foram inventadas em 2020.

Impedir uma pessoa saudável e em idade ativa de sair de casa e trabalhar para “pôr pão na mesa”, para si e para os seus, é uma violação do direito à vida porque priva os cidadãos dos recursos necessários à sobrevivência. Quando vejo filas, à porta da sopa dos pobres, de vítimas das medidas extravagantes do governo para a “guerra ao Coronavírus”, sinto uma profunda tristeza e revolta.

O estatuto da OM determina que esta deve ‹‹contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes››. Descorando a verdade sobre a epidemia do Coronavírus e sobre as consequências das medidas de contenção, a OM poderá estar a violar os seus próprios estatutos. Estamos perante uma crise em que “calar é colaborar com o maior abuso de sempre perpetrado sobre a população portuguesa”. Milhares de médicos, por todo o mundo, estão a interpelar as respetivas associações profissionais, questionando a cobertura implícita que estas têm vindo a dar às medidas do governo; é necessário terminar com esta passividade cúmplice.

Na Alemanha, perante a relutância dos políticos em auditar as respostas ao COVID, foi organizado um “Inquérito COVID Extraparlamentar” que conta com a colaboração de muitos médicos especialistas em epidemiologia e doenças infectocontagiosas. Em Portugal poderemos ter de fazer o mesmo. (1)

Há dias fui surpreendido por uma declaração do nosso bastonário, o meu estimado amigo Dr. Miguel Guimarães, favorável à obrigatoriedade do uso de máscaras em espaços abertos, em todo o território nacional (2). Com todo o devido respeito e amizade, é necessário afirmar que esta declaração não tem fundamento científico sólido, nem corresponde às recomendações da OMS. (3) Iria, contudo, estimular o medo e a ansiedade da população.

Quando é necessário apaziguar o pânico e regressar logo que possível à normalidade, os médicos devem estar do lado da ciência, do bom senso e da razão. Temos de contribuir para que “a cura não seja pior do que a doença” porque esse é o nosso compromisso com a humanidade.

Joaquim Sá Couto

Médico

  1. https://acu2020.org/international/
  2. https://observador.pt/2020/08/07/bastonario-da-ordem-dos-medicos-diz-que-se-devia-pensar-seriamente-na-utilizacao-de-mascara-no-exterior-em-todo-o-pais/
  3. https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-opening-remarks-at-the-media-briefing-on-covid-19—5-june-2020

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